A importância da beleza segundo Domenico De Masi*


Muita gente pode achar que estar cercado de coisas belas não faz a menor diferença. Mas nós, do Living Design, acreditamos que é exatamente o oposto disto: a beleza pode sim transformar o mundo, porque ela tem a capacidade de nos transmitir alegria e felicidade.

Quem concorda com nosso ponto de vista é ninguém menos que o sociólogo italiano Domenico De Masi, conhecido no mundo inteiro por ser autor do livro “O Ócio Criativo”. De Masi esteve no Brasil participando de um congresso sobre educação, em que apresentou perspectivas para a sociedade de hoje.

Segundo ele, a estética irá se tornar o principal fator competitivo no mercado de trabalho daqui para frente, já que as tecnologias estão cada vez mais sofisticadas, e os produtos pouco irão se diferenciar neste sentido. “Em 2020, apenas a qualidade formal dos objetos será interessante”, disse.

Confirmada a relevância do tema, aproveitamos a passagem do sociólogo pelo Brasil para fazermos algumas perguntas. Confira:

Qual é a importância do design na vida das pessoas hoje e no futuro?

O design tem uma importância extraordinária porque traz beleza à vida cotidiana. Antes, a beleza era só para os ricos, estava nos palácios e nas igrejas, não na casa das pessoas. O povo não tinha casas bonitas. Foi apenas na segunda metade do século XIX que a beleza se tornou mais democrática, e foi nessa mesma época que passou a ser possível fabricar coisas bonitas em grandes séries. A clássica cadeira número 11 do Thonet [o construtor de móveis austríaco Michael Thonet] foi criada em 1848. Em 1901, já tinham sido vendidos 50 milhões de exemplares, e até hoje ela é uma das peças mais vendidas no mundo, mesmo que um pouco modificada – inclusive esta cadeira em que estamos sentados é uma espécie de cópia dela. No século XX surgiram escolas de design, como a Wiener Werkstte  [Ateliê de Viena], de onde saíram Klimt, [o pintor austríaco Gustav Klimt], Hoffman [o arquiteto austríaco Josef Hoffman], em parte influenciados por Otto Wagner, que foi quem projetou o metrô de Viena e uma série de móveis. Depois veio a Bauhaus, obviamente, com um estilo extraordinário, tornando conhecidos nomes como Gropius [o arquiteto alemão Walter Gropius], Mies Van der Rohe, e depois disso ainda tantos outros. Hoje, somos acordados de manhã por um rádio-relógio com um design belíssimo; depois, escovamos os dentes com uma escova desenhada pelo Phillipe Starck; depois, tomamos banho com um sabonete cuja propaganda foi feita por um grande publicitário; depois, nos sentamos numa cadeira dos irmãos Campana e acendemos uma luminária de Caccia Dominioni [Luigi Caccia Dominioni, arquiteto e designer italiano]. Agora, até o fim do dia, nos deparamos com objetos maravilhosamente desenhados. Enfim, o design é uma arte que introduz a beleza em todos os instantes da nossa vida.

Assim como dizia Dostoievski, o senhor acredita que somente a beleza poderá salvar o mundo?

Não, eu não creio que possa salvar o mundo, acho que pode fazê-lo mais belo. O mundo se salva com a revolução, não com a beleza.

Então qual é a importância de termos um senso estético apurado?

Ter senso estético é importante porque ele te dá alegria, felicidade – ele é a harmonia entre nós e uma coisa. Por exemplo, o seu rosto: olho para ele, que é bonito, e fico feliz. Já dizia Keats [o poeta inglês Jonh Keats]: “uma obra de arte é uma alegria que dura para sempre”. Mas uma obra também é para sempre não só quando é bela, mas também quando é impactante, surpreendente, equilibrada. Para os gregos, uma obra de arte deveria ter equilíbrio. Para nós, dever ter um elemento surpresa. O senso estético foi mudando através dos séculos, mas ele sempre traz alegria. Se eu vejo um quadro de Lichtenstein [Roy Lichtenstein, pintor americano de Pop Art] ou de Bacon [Francis Bacon, pintor anglo-irlandês], tenho as mesmas sensações de quando vejo uma escultura de Michelangelo.

O senhor acredita que a arquitetura que vemos hoje nas cidades também tem condições de trazer mais beleza para nossas vidas?

Nós temos muita sorte, porque depois do Renascimento e do Barroco, não havia mais acontecido nenhuma fase de explosão arquitetônica. Agora, ao contrário, é uma maravilha, as cidades estão se transformando completamente. Oscar Niemeyer criou uma, que é Brasília, mas ele também transformou São Paulo. Na manhã de hoje eu fui à Oca, ao Memorial da América Latina, e cada vez que venho aqui eu revejo essas obras de arte, por que são obras-primas absolutas. Gehry transformou Bilbao, Niemeyer tem obras no país onde eu vivo, ele inclusive me presenteou com o projeto de um auditório belíssimo construído em Ravello. Nouvel [Jean Nouvel, arquiteto francês] transformou o skyline de Barcelona, assim como havia feito Gaudí. A arquitetura contemporânea é uma alegria extraordinária, devemos ser gratos aos grandes arquitetos. Dubai é uma obra-prima, a nova Berlim, também. Devemos ser gratos a eles porque estão deixando o mundo mais belo.

O senhor disse agora pouco que estamos sentados na cópia de uma cadeira de Thonet. O que você pensa sobre as cópias no design?

Acredito que são belas, mas são um roubo. Por exemplo: eu tenho um amigo na Itália que recriou várias peças assinadas por designers famosos para sua empresa, a Cassina – o nome dele é Fillipo Alison. Ele reproduz móveis clássicos de Le Corbusier, Mackintosh, Rietveld. É como um maestro de uma orquestra que toca obras de Beethoven e até as melhora. Mas há também quem faça cópias quase iguais, o que eu considero desonesto.

5 comentários Adicione o seu
  1. OI, Mônica,

    Fantástica a entrevista com o Sociólogo/filósofo Di Masi. Já acompanhei outras entrevistas dele e sempre fico embevecida.
    Realmente, “o mundo se salva com a revolução, não com a beleza”. E veja que não são poucas. A revolução tecnológica tem propiciado o avanço no mundo e aproximado as pessoas, em termos de consumo.
    Mesmo que não desfrutemos da aura de determinado objeto, só de nos aproximarmos de sua forma, já nos faz bem. E aí é que percebemos o quanto a beleza é democrática, mesmo que eu nunca me sente em uma cadeira de Thonet.
    Abraço!